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14 de jun de 2013

  Nunca é fácil pra alguém aceitar o fato que cresceu, que você deixa de ser criança, e é forçado pela própria vida a amadurecer. Eu não aceitava aquilo, digo, não queria aceitar. Nunca fui preparado para lidar diretamente com a minha vida, quanto mais com a vida dos outros. E quando dei por mim, estava prestes a ser colocado em uma situação que eu teria que tirar vidas, vidas essas que nunca me pertenceram, mas que alguém numa posição maior que a minha achara que pertencera.
  Me tornar um soldado nazista nunca foi um motivo de honra, eu nunca amei fervorosamente o meu pais e a cada dia que passava eu percebia que estava perdendo minha alma, aos poucos, lentamente, como se cada tiro ao ar que eu desse levasse embora uma gota dela.
  Era 20 de Janeiro de 1942, nós estávamos invadindo. Havia muitas pessoas gritando, muito sangue e gente entregando-se ao seu destino sem sequer lutar. Estavam cansados. E a ordem era matar sem pergunta, se fosse judeu, atirar!
 Lembro que entrei dentro de uma casa que desmoronava, havia metade casa em pé, metade escombros. Eu entrei devagar, passo a passo, meus pés pesavam, o barulho de tiro do lado de fora não atrapalhou minha concentração.

Quando de repente, silêncio.

 Na minha frente uma menina.
 De costas.

Era eu com minha arma, era a menina bem à frente. Ela usava a estrela de Davi no lado direito do braço. Droga, tratava-se de uma judia. Droga, nunca havia matado crianças.

Mas dizem que a guerra tira a alma da gente e naquele momento não pensei duas vezes, não havia idade, não havia sexo, havia a raça e era inferior. Atirei, a menina caiu com uma delicadeza impar, foi então que ouvi um grito. Sua mãe (imagino que fosse) estava escondia e não conseguiu se conter, correu e começou a chorar sobre o corpo da filha. Suas lágrimas caiam sobre o rosto da menina.

Diante daquela cena não consegui atirar mais. Me virei e sai correndo deixando a mãe e a menina para trás, foi a primeira vez na guerra que chorei.

Naquele momento eu senti que havia apagado a luz de alguém.

E a minha também.


23 comentários:

  1. Lindo e intenso texto! Obrigado pelo carinho por lá nos céus! beijos,chica

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  2. Interessante o seu texto. Obrigada pela visita.
    Bjs e ótimo dia.

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  3. Retribuindo sua visita e comentário, obrigada, volte sempre.
    tbm gostei daqui,

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  4. Você escreve de tal maneira que nos prende a leitura, muito bom o texto!

    Ótimo final de semana.

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  5. Que texto emocionante... Escreves tão bem :)

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  6. Olá!
    Ameeei o seu blog e o texto!
    Se puder dá uma passadinha no meu e deixa um comentário?
    Meu mundo, Meu quarto

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  7. r: prefiro não falar :| desculpa

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  8. Camila, fico profundamente impressionada com a sua escrita. Há tempos, tentei ler um relato de guerra sobre a invasão da Polónia pelos nazis e não consegui, dada a crueza, a brutalidade das cenas descritas. Creio que se chamava "as benfeitoras". A sua narrativa são flashes, também eles, dilacerantes, fortíssimos. A cena descrita é pungente, no cair suave da menina atingida.

    Obrigada pelos seus sempre carinhosos comentários.

    Beijo

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  9. Nossa. Que forte. E que lindo! Camila, admiro demais quem escreve assim. De forma surpreendente e fisgadora. Amei. Parabéns!

    Blog: O silêncio não existe
    FanPage: www.facebook.com.br/osilencionaoexiste

    Olha e peço desculpas pela ausência. A vida tomou uns caminhos turbulentos! Mas, estou de volta!
    Beijos, Lenise

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  10. Omg, tu escreves super bem...

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  11. Que forte! Escreve muito bem!
    Bjoks

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  12. o que eu dava para não passar por isto

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  13. Concordo com a menina acima: muito forte a tua escrita. Espero que a escrita seja uma forma de catarse, mas que, no dia a dia, você seja muito mais leveza que força. Mas que você escreve bem, escreve...

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  14. Que forte. Passa sensações profundas, que aglutinam a alma. Que situação. o trágico que emociona... Apaga a luz, e dá luz. Porque refletimos.

    Lindo!!

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  15. R: Mas devia pensar assim :)
    Que texto lindo, emocionante!

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  16. Muito bonito o seu texto, mesmo sendo cruel e tão tão forte. Parabéns!

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  17. "There Is A Light That Never Goes Out".

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